São Paulo – Aumentar a
transparência e a
fiscalização da partilha
dos direitos autorais é
a principal
reivindicação dos
ativistas empenhados na
discussão sobre as
mudanças na Lei
9.610/98, que regula os
direitos autorais. Nesse
ponto, a coordenadora do
Grupo de Ação
Parlamentar (GAP),
Cristina Saraiva,
organização de artistas
que acompanha as
propostas de alteração
na legislação, defende o
projeto elaborado pelo
Ministério da Cultura.
O texto foi elaborado
pela gestão passada do
órgão, após uma série de
consultas públicas e
disponibilizado no
último dia 22 na página
do ministério. A partir
de agora, haverá uma
nova etapa de diálogo
com a sociedade na busca
de mais consenso sobre a
proposta.
Para Cristina, que é
compositora, o projeto
construído pelo
ministério avançou
bastante na criação de
“mecanismos para regular
essa questão do direito
autoral e do escritório
de arrecadação”.
Atualmente, a cobrança e
distribuição dos
recursos provenientes
dos direitos autorais da
música é gerida pelo
Escritório Central de
Arrecadação e
Distribuição (Ecad), uma
entidade formada por
nove associações.
O modelo de distribuição
do Ecad é, no entanto,
bastante criticado por
alguns grupos de
artistas. Um dos
principais problemas, na
opinião de Cristina, é o
uso da amostragem para
definir quais artistas
receberam a maior parte
do dinheiro arrecadado.
O Ecad verifica quais
foram as 600 músicas
mais tocadas em uma
amostra de rádios. Os
detentores dos direitos
dessas obras vão receber
os recursos sem
identificação, advindos
por exemplo, de locais
que tocam música
ambiente.
“A gente não consegue
compreender porque
razão, com a tecnologia
tão avançada que a gente
dispõe hoje, o Ecad não
consegue fazer uso dessa
tecnologia para conferir
as execuções no país”,
questiona Cristina. De
acordo com ela, o modelo
atual beneficia os
grandes artistas de
gravadoras. “É grave que
seja um setor em que
aqueles que ganham mais
ganhem mais ainda. E
aqueles que ganham pouco
não ganham nada”,
reclama.
A presidenta do Conselho
Brasileiro de Entidades
Culturais, Eneida Soller,
também defende que haja
um controle mais
rigoroso e preciso do
pagamento de direitos
autorais. “O Estado tem
que fiscalizar porque a
arrecadação é
impositiva.”
Marisa Gandelman,
diretora executiva da
União Brasileira de
Compositores (UBC), uma
das entidades que formam
o Ecad, rebateu as
críticas. Segundo ela, o
projeto de mudança da
regulamentação dos
direitos autorais tem um
“viés utilitário” na
relação dos artistas com
o público. “Transforma o
compositor em
fornecedor, e o público
em consumidor”.
De acordo com ela, é
difícil mudar o modo
como são calculados os
direitos devidos a cada
artista, por causa do
custo elevado de métodos
mais precisos. Uma
mudança de modelo
poderia, segundo Marisa,
significar até uma
redução nos valores
pagos. “Tem uma equação
complexa de se fechar e
se dizer qual é o ponto
ótimo”, ponderou.
A necessidade de maior
fiscalização também é
contestada por Marisa.
“Quem disse que uma
agência governamental é
mais confiável?”,
rebate. Segundo ela, o
Ecad presta contas à
Receita Federal, e
qualquer associado pode
ter acesso aos
documentos que
justificam os valores
pagos.
Fundador do grupo
musical Teatro Mágico e
ativista do movimento
Música para Baixar,
Gustavo Anitelli
questiona a necessidade
de intermediários para
arrecadar os direitos
autorais. “Os artistas
hoje têm uma capacidade
enorme de se conectar
diretamente com seu
público. Nesse sentido,
que a gente defende as
flexibilizações das leis
para que o autor ganhe
mais.”
A rede mundial de
computadores
possibilita, na visão de
Anitelli, que mais
pessoas tenham acesso
aos bens culturais e ao
mesmo tempo maior
remuneração aos
artistas. “O fato de
muitas pessoas nos
ouvirem na internet faz
muitas pessoas irem aos
shows e comprarem os
CDs”, exemplificou.
Cristina Saraiva
acredita, no entanto,
que um modelo livre
demais pode prejudicar
artistas que vivem
apenas de composições e
não fazem apresentações.
Por isso, ela defende
algum tipo de cobrança
sobre provedores ou
grandes portais. “Não se
deve criminalizar o
usuário, mas estabelecer
algum tipo de taxa sobre
aqueles que efetivamente
lucram com o comércio de
música na internet”.